terça-feira, março 20, 2018

O ser que não sou mais


( imagem retirada do Tumblr)


Acordei animada com a vida e esperançosa que tinha uma vida inteira para brilhar, uma vida inteira para dançar descalça pela casa com um vestido branco de chiffon plissado.
Queria que o mundo me visse feliz, queria tanto compartilhar que a vida é bela.
Mas, não é!
A vida passou a cegar-me cheguei ao ponto de não poder ver o céu azul, o olhar desconhecido, a cor da sua pele  e o seu coração.
Com o tempo fiquei surda e deixei de poder dançar sozinha pela casa, eu tinha medo e estava desolada por não ter música nos meus ouvidos, de não conseguir decifrar uma palavra que pudesse consolar.
Os meus braços tornaram-se desnecessários já não podia abraçar o corpo desse outro alguém, já não poderia fazer a magia que fazia na cozinha confortando os estômagos dos meus amados.
As minhas pernas pouco se moviam e faziam cada vez mais ter a certeza de que eu não poderia correr mais, não poderia buscar os meus sonhos na velocidade que eu queria.
Sentia-me cada vez mais sozinha tendo a minha pele a ressecar e eu destestava saber que havia tanto pouco de mim para dar.
O meu peito estava vúlnerável a um coração despedaçado pelos amores que lá passaram e por cada mentira e promessa nunca cumprida, estava tão despedaçado que mesmo que quisesse salvá-lo mais valia colocar dentro de uma caixa e esperar que ele recuperasse.
A minha memória degradada estava desfalecendo comigo estava sendo levada para longe do meu corpo dando lugar ao vazio de hospedar-se por lá.
Sozinha tinha caído no vazio, sem os meus braços para alguém puxar, sem as minhas pernas como símbolo de luta, sem a minha pele para o sol curar-me, sem o meu coração para poder sentir e agradecer, e sem a minha memória para algum dia poder relembrar.
A vida poderia ter sido bela se ela não tivesse tentado destruir e fazer ressurgir ao ser que não sou mais.

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